Clarisse Ismério · Pesquisas Históricas Vidas Educadoras Mulheres na História

Por Clarisse Ismério · 2 de maio de 2026

Houve um tempo em que o destino das mulheres era traçado muito antes de nascer. Um tempo em que lhes cabia o silêncio, o cuidado do lar e a nobre, porém limitadora, missão de educar os filhos. Era o tempo da supremacia da rainha do lar e do anjo tutelar, demarcado pela doutrina positivista de Auguste Comte.

Porém, algumas educadoras romperam com os padrões sociais vigentes ao defenderem a emancipação intelectual feminina. No exercício do magistério, conquistaram espaços de atuação e visibilidade, afirmando-se também como escritoras e jornalistas. Por meio de suas palavras, difundiram ideias, romperam limites e questionaram os valores de uma sociedade machista e conservadora.

Luciana de Abreu foi uma dessas vozes que romperam o esperado. Nascida em condições adversas, fez da educação sua força e da palavra seu instrumento. Professora formada pela Escola Normal de Porto Alegre, destacou-se não apenas pelo ensino, mas pela coragem de ocupar espaços públicos de fala. Em sua conferência “A Educação das Mães de Família”, apresentada no Partenon

Literário, defendeu com firmeza aquilo que poucos ousavam dizer: o direito das mulheres à instrução e à igualdade de oportunidades. Sua fala não era apenas um discurso, era um gesto político, um ato de coragem que desafiava a lógica de seu tempo.

Outra presença marcante foi Anna Aurora do Amaral Lisboa, cuja trajetória revela a complexidade de ser mulher em um período de tensões políticas e sociais. Professora, escritora e fundadora do Colégio Amaral Lisboa, na cidade de Rio Pardo, ela utilizou a imprensa para difundir suas ideias. Em textos como “Educação da Mulher”, publicados em jornais e almanaques, defendia a necessidade de uma formação sólida para que as mulheres pudessem enfrentar as adversidades da vida com autonomia. Ainda que, em certos momentos, modulasse seu discurso diante das pressões sociais, sua escrita revelava uma inquietação constante e uma resistência possível.

Na cidade de Rio Grande, outras vozes se uniram, ampliando o alcance desse movimento. As irmãs Revocata Heloísa de Mello e Julieta de Mello Monteiro ousaram mais: fundaram o jornal “O Corymbo”, um dos primeiros periódicos feministas do Rio Grande do Sul. Ali, entre poemas, crônicas e artigos, construíram um espaço de diálogo, crítica e afirmação intelectual feminina. Também colaboraram com outros periódicos, como O Lábaro, O Contemporâneo e a Revista Literária, ampliando suas redes de atuação. Em suas páginas, questionavam com ironia e lucidez as contradições de uma sociedade que exigia educação feminina, mas temia suas consequências.

Outra grande voz foi Andradina de Oliveira. Uma mulher intensa, ousada, à frente de seu tempo. Professora, dramaturga, conferencista, fez da palavra uma forma de luta. Em Bagé, fundou o jornal “Escrínio”, um espaço dedicado à valorização da intelectualidade feminina e à difusão de ideias progressistas. Em obras como “Divórcio?”, abordou temas profundamente sensíveis à época, denunciando a condição da mulher presa a relações opressivas e defendendo mudanças legais e sociais. Sua escrita não buscava agradar, muito pelo contrário, buscava provocar, despertar, transformar.

Essas mulheres não romperam completamente as estruturas de seu tempo, mas abriram brechas.

E, por essas brechas, passou a luz.

Transformaram o magistério em palco de atuação intelectual, o jornal em tribuna, a literatura em resistência. Se a sociedade lhes impunha limites, elas os desafiavam. Se lhes oferecia o silêncio, respondiam com palavras.

Hoje, suas trajetórias não são apenas lembranças de um passado distante. São presenças vivas, que ainda nos interpelam. Porque cada aula ministrada, cada texto publicado, cada ideia defendida foi, em si, um ato de coragem.

Elas não apenas ensinaram conteúdos, nem se limitaram a escrever artigos, discursos e livros.

Por meio de seus protagonismos, inspiraram e fortaleceram as gerações de mulheres que as sucederam.

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